
Se você assistiu ao filme O Agente Secreto, pode ter piscado ao ver uma perna cabeluda aterrorizando personagens nas ruas do Recife. Antes de parecer surreal ou inventada só para cinema, essa história tem raízes profundas no imaginário nordestino. A figura lendária conhecida como Perna Cabeluda nasceu nas páginas dos jornais na década de 1970 e ganhou vida em todo o Nordeste. E não apenas na região de Recife, afinal, quem é um pouco mais velho certamente já ouviu falar na Pena Cabeluda do Zé Walter.
Agora, a lenda foi apropriada pelo filme como metáfora simbólica e cultural. E ganhou o mundo. Então, se você nunca tinha ouvido falar nesse mito, vem conhecer com a gente!

Surge a Perna Cabeluda na imprensa
Mesmo sendo uma lenda bem popular em Fortaleza, a primeira aparição conhecida da Perna Cabeluda em registros documentados não foi na capital cearense. Em 10 de dezembro de 1975, o jornal Diário de Pernambuco publicou que uma “perna fantasma” teria surgido numa casa em São Lourenço da Mata, na Região Metropolitana do Recife. O relato descrevia uma perna movendo-se sozinha pelas paredes da residência, deixando moradores perplexos.
Em seguida, vieram outras edições falando da mesma “criatura”. Agora, outras pessoas afirmaram ter visto a perna misteriosa, e boatos transformaram a história em folclore urbano. Com o tempo, a lenda ganhou cada vez mais detalhes. Assim, a Perna Cabeluda seria um membro inferior coberto de pelos e unhas deformadas, que se desloca sozinho e ataca pessoas à noite com chutes e rasteiras, sobretudo em lugares escuros ou isolados.
Raimundo Carrero, o responsável pela expansão do mito
Uma coisa que pouca gente sabe, pelo menos quem é de fora de PErnambuco, é que um escritor teve grande importância na popularização da lenda da Perna Cabeluda. Segundo a BBC, O mito ganhou ainda mais força quando o jornalista e escritor Raimundo Carrero, então redator do Diário de Pernambuco, inseriu a Perna Cabeluda em textos de ficção e crônicas policiais em 1976. A partir dessa construção literária, a perna virou personagem recorrente das narrativas urbanas e alcançou eventualmente outras mídias, como rádio, HQs e, mais tarde, o cinema.

A circulação em programas de rádio ajudou a espalhar a lenda não apenas no Recife, mas também em outras cidades nordestinas, como João Pessoa e Fortaleza, onde moradores relatavam ouvir histórias sobre essa criatura invisível que assombrava ruas escuras.
E a Perna Cabeluda do Zé Walter?
A lenda da Perna Cabeluda nasce em um período específico. Fortaleza crescia rapidamente, enquanto o país vivia a ditadura militar, com repressão, censura e insegurança social. Nesse cenário, histórias assustadoras funcionavam como explicação simbólica para o medo difuso da época.
Em Fortaleza, o bairro José Walter, na época mais afastado do centro, com pouca iluminação pública e muitos terrenos baldios, virou o cenário perfeito para “abrigar” a assombração. Além disso, a lenda da Perna Cabeluda também cumpria uma função prática. Ela mantinha crianças e jovens dentro de casa à noite, especialmente em bairros onde a violência urbana começava a crescer.
Contudo, para muitos pesquisadores e historiadores, a lenda da Perna Cabeluda não se limita a um conto de terror regional. Ela também funciona como manifestação simbólica de ansiedades sociais e medos urbanos de uma época específica do Brasil — os anos de ditadura militar (1964-1985), quando a censura e a repressão impediam a circulação aberta de notícias sobre violência, política e conflitos.
Seja como for, o fato é que a Perna Cabeluda, independente da cidade nordestina, é uma lenda que transcende gerações. E que muita gente reconheceu e sorriu ao ver retratada nas telas dos cinemas em O Agente Secreto.
Fotos: Reprodução





